Saturday, January 26, 2008

A casa da Mariana

Nestes dias solarengos de Inverno lembro-me sempre da casa da Mariana. Especialmente desde que voltei às origens, e consigo voltar a sentir o cheiro da terra daqui. Sim, porque o cheiro da terra, é diferente de sítio para sítio. Não consigo defini-lo ao certo, é uma mistura do cheiro dos plátanos que existiam quando cá vivi e que ficou entranhado no cheiro que eu sinto deste lugar.

Cheira bem, cheira a casa, a conforto, é um cheiro fresco a vida, a cores garridas, passeios para apanhar amoras e gargalhadas.

Em dias assim ia brincar para casa da Mariana. Foi uma casa que me ficou das memórias de infância. Parecia uma casa de bonecas, uma casa mágica. Tinha um jardim enorme, com um pneu para baloiçar numa árvore, uma rede, arvores para trepar, uma laranjeira com flores brancas que enchiam o jardim com um cheiro fresco e doce e um moinho de vento bem bem alto que ela e os irmãos trepavam. De lá de cima conseguiam ver o mundo todo. O jardim tinha 4 canteiros, um da Mariana, e os outros 3 de cada um dos irmãos dela: do Kiko, do Lourenço e da Joaninha. O canteiro da Mariana tinha malmequeres, …só me lembro bem deste. Havia um tanque bem grande que eles enchiam de água no verão e davam mergulhos.

Na casa da Mariana cheirava sempre a bolos de chocolate, a mel com nozes e a outras iguarias caseiras que eu ia descobrindo sem querer. O chão de madeira antiga rangia com os nossos passos, e havia uma passagem secreta com umas escadas que iam ter a um sótão cheio de sonhos escondidos. A casa tinha recantos secretos, e todos com tantas coisas para descobrir.

Havia um relógio de cuco, daqueles antigos, a às horas certas o cuco saia para fora da sua casa e piava.

Desde essa altura fiquei a gostar de casas antigas, acho que têm um sabor especial, de janelas de madeira, mesmo quando toda a gente me diz que as de alumínio são melhores e deste cheiro de brincadeiras deste sítio.

A Mariana já não mora lá. A casa foi destruída, fiquei tão triste quando soube que nem queria acreditar, … Foi construído lá um prédio e aquele lugar perdeu toda a sua magia. Ficaram as lembranças daquilo que conheci, e que mais ninguém vai ter oportunidade de ver. Essas lembranças trazem-me um misto de melancolia e de esperança que um dia possa vir a ver de novo uma “casa-da-mariana” outra vez, talvez noutro sítio, talvez noutros tempos…quem sabe….

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Sunday, January 20, 2008

No fim do dia vou encontrar-te na luz do sol poente, à minha espera. Vou dar-te a mão, e um beijo que vai durar até a lua cheia subir aos céus só para nos iluminar num azul de veludo repleto das mesmas estrelas da sorte e do fado que um dia nos juntaram.
E vamos dançar, cintilantes, … ao som de uma música só ouvida por nós, calma e quente em cada gesto e cada olhar. Vamos ouvir o som do mar e (re)encontrar o nosso mundo na cumplicidade que é tão nossa. O tempo vai durar para sempre, o amor tornar-nos-á eternos, os cansaços e os medos vão voar para longe, só ficarão as mãos, juntas. O nós vai ganhar através das luzes que dançam alegres por entre as sombras. Vamos ser vida e sonhos, paixão e cumplicidade, amor e amizade, noite e dia…vamos ser tudo.

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Friday, January 18, 2008

Dialectos de ternura…

Acho uma injustiça fazerem o anúncio de televisão com expressões brasileiras, e não fazerem com africanas! Agora, que toda a gente já sabe o que é pimbolim, ou aeromoça, é tempo de seguir em frente nesse esforço de abraçar todos os dialectos no nosso país, para aumentar a compreensão inter-racial! Fica aqui um lamiré…

“Olhe, desculpe, podia-me emprestar o seu telemóvel para mandar uma mensagem à minha mãe,…é que fiquei sem saldo…”
é
“Xé dréd, deixa lá mandar-uma-mensage.”

“Os teus ténis são muito giros.”
“Xé sócio, ténis do bufo!”

“Vou de carro para o trabalho.”
“Vou pró bules no meu bote.”

“Estava em casa com a minha namorada.”
“Táva lá com a minha dáma, no meu cubículo.”

“Vaidosa…”
“Mutóoooola!”


“Aquele senhor de_côr”
“Aquele nigga” 

“Tira o chapéu-de-chuva da boca, e pára de acertar nas pessoas.”
“Pára quieta com a sombrinha, pah!”
(Felizmente que a pirralha saiu na Amadora, porque desconfio que se fosse até Entrecampos uma de nós ía sair daquele comboio com um traumatismo craniano. Ai,….santa paciência!)



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Thursday, January 17, 2008

Conhecidos

Dia após dia somos obrigados a conviver com eles. Estão por toda a parte. São os chamados “conhecidos”. Fulano tal é meu conhecido. O que é que isto significa? Não é amigo, nem colega, é um desconhecido com quem se troca um cumprimento amistoso e completamente desprovido de qualquer significado.
Ouvimos à nossa volta constantemente o seu serviço de civilidade, cumprimentando: “Está tudo bem?”, de ouvidos surdos e previamente programados para o: Está tudo, obrigada…
Se dissermos um qualquer absurdo, eles vão sorrir e continuar o seu caminho. E assim se descartam dos problemas que ouviram dos outros, simplesmente ignorando-os. “Isso passa-lhe!”, “isso não é nada!”, “É normalíssimo!”, “Não tem problema nenhum!”, “Está óptimo! Afinal, amanhã já nem se lembra!”, “Há coisas piores…”. Sim, de facto há coisas piores, era pior se me acontecesse a mim. Aí sim, eu estaria preocupado.
Não percebo, não me faz sentido… o sorriso de falsa preocupação, de falso interesse. Depois de ouvir todos os problemas… “mas está tudo bem não está?”, roboticamente. Porque vindo da boca dos outros, que se estão sempre a queixar de tudo, tudo parece fácil, tudo parece normal, e sem qualquer dificuldade, até as doenças são menos graves.
Só quem passa pelas mesmas dificuldades consegue compreender. E só quem gosta verdadeiramente, (des)programa os ouvidos para ouvir realmente, e quem sabe, talvez até dar uma palavra amiga, um abraço, um beijo, ou tentar ajudar de alguma outra forma. Só quem realmente se importa, consegue ouvir as más noticias, as coisas menos boas que acontecem.
Os outros, os (des)conhecidos, gostam de ouvir as piadas novas, as noticias sobre o tempo, as novidades boas e divertidas, as habilitações literárias, as cusquices sobre os vizinhos e é por aí que o conhecimento deve ficar. Porque o conhecido é um desconhecido que deve melhorar o nosso dia, e mesmo o nosso ego.
Pois isto para mim, não é conhecimento. É desconhecimento, desinteresse e perda de tempo para ambas as partes.

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Monday, January 7, 2008

Jeremias, o fora-da-lei


Vou falar-vos dum curioso personagem: Jeremias, o fora-da-lei
Descendente por linha travessa do famigerado Zé do Telhado
Jeremias dedicou-se desde tenra idade ao fabrico da bomba caseira
Cuja eloquência sempre o deixou maravilhado

Para Jeremias nada se assemelha à magia da dinamite
A não ser talvez o rugir apaixonado das mais profundas entranhas da terra
E só quando as fachadas dos edifícios públicos explodirem numa gargalhada
Será realmente pública a lei que as leis encerram

Há quem veja em Jeremias apenas mais uma vítima da sociedade
Muito embora ele tenha a esse respeito uma opinião bem particular
É que enquanto um criminoso tem uma certa tendência natural para ser vitimado
Jeremias nunca encontrou razões para se culpar

Porque nunca foi a ambição, nem a vingança, que o levou a desprezar a lei
E jamais lhe passou pela cabeça tentar alterar a Constituição
Como um poeta ele desarranja o pesadelo para lá dos limites legais
Foragido por amor ao que é belo e por vocação

Jeremias gosta do guarda roupa negro e dos mitos do fora-da-lei
Gosta do calor da aguardente e de seguir remando contra a maré
Gosta da maneira como os homens respeitáveis se engasgam quando falam dele
E da forma como as mulheres murmuram: fora-da-lei

Gosta de tesouros e mapas sobretudo daqueles que o tempo mais maltratou
Gosta de brincar com o destino e nem o próprio inferno o apavora
Não estando disposto a esperar que a humanidade venha alguma vez a ser melhor
Jeremias escolheu o seu lugar do lado de fora
Jeremias escolheu o seu lugar do lado de fora


 

Jorge Palma

(é sempre bom voltar a ouvir este som, …com sabores a um corridinho do faroeste…)

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Tuesday, January 1, 2008

disasterpieces… of me


I am infinite, I am the infant finite
 disaster


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