A casa da Mariana
Nestes dias solarengos de Inverno lembro-me sempre da casa da Mariana. Especialmente desde que voltei às origens, e consigo voltar a sentir o cheiro da terra daqui. Sim, porque o cheiro da terra, é diferente de sítio para sítio. Não consigo defini-lo ao certo, é uma mistura do cheiro dos plátanos que existiam quando cá vivi e que ficou entranhado no cheiro que eu sinto deste lugar.
Cheira bem, cheira a casa, a conforto, é um cheiro fresco a vida, a cores garridas, passeios para apanhar amoras e gargalhadas.
Em dias assim ia brincar para casa da Mariana. Foi uma casa que me ficou das memórias de infância. Parecia uma casa de bonecas, uma casa mágica. Tinha um jardim enorme, com um pneu para baloiçar numa árvore, uma rede, arvores para trepar, uma laranjeira com flores brancas que enchiam o jardim com um cheiro fresco e doce e um moinho de vento bem bem alto que ela e os irmãos trepavam. De lá de cima conseguiam ver o mundo todo. O jardim tinha 4 canteiros, um da Mariana, e os outros 3 de cada um dos irmãos dela: do Kiko, do Lourenço e da Joaninha. O canteiro da Mariana tinha malmequeres, …só me lembro bem deste. Havia um tanque bem grande que eles enchiam de água no verão e davam mergulhos.
Na casa da Mariana cheirava sempre a bolos de chocolate, a mel com nozes e a outras iguarias caseiras que eu ia descobrindo sem querer. O chão de madeira antiga rangia com os nossos passos, e havia uma passagem secreta com umas escadas que iam ter a um sótão cheio de sonhos escondidos. A casa tinha recantos secretos, e todos com tantas coisas para descobrir.
Havia um relógio de cuco, daqueles antigos, a às horas certas o cuco saia para fora da sua casa e piava.
Desde essa altura fiquei a gostar de casas antigas, acho que têm um sabor especial, de janelas de madeira, mesmo quando toda a gente me diz que as de alumínio são melhores e deste cheiro de brincadeiras deste sítio.
A Mariana já não mora lá. A casa foi destruída, fiquei tão triste quando soube que nem queria acreditar, … Foi construído lá um prédio e aquele lugar perdeu toda a sua magia. Ficaram as lembranças daquilo que conheci, e que mais ninguém vai ter oportunidade de ver. Essas lembranças trazem-me um misto de melancolia e de esperança que um dia possa vir a ver de novo uma “casa-da-mariana” outra vez, talvez noutro sítio, talvez noutros tempos…quem sabe….




