Friday, February 5, 2010

Deixei-me cair no banco junto à janela. Podia ser só mais uma vez como tantas outras, em que me deixo ficar e perco o olhar e os sonhos no horizonte, nos montes ao longe, no céu ora limpo ora carregado, no burburinho da cidade de desperta. Mas não desta vez…desta vez sentei-me só para estar comigo.

Recusei-me a pôr açúcar no sumo de limão espremido à minha frente. Também não o diluí com água. Quis que fosse assim, puro, cru, ácido. Como a vida, no fundo, pensei. No fundo, mesmo que se encha de açúcar, que se dilua com água, a vida será sempre ácida. Usamos o açúcar e a água como tentativas desesperadas de mascarar o seu paladar.

As células sensoriais responsáveis pelo doce entram primeiro em acção, esperando dominar o ácido. Este é sentido mais tarde no fundo da região lateral da língua, após se entranhar. Quando o açúcar não é suficiente, o ácido sobrepõe-se muito facilmente ao doce, afinal é ele o natural.

Bem, sendo a vida aquilo que fazemos dela, na verdade o ácido está então nas pessoas e não na vida em si. Não é a vida que não nos dá muitas oportunidades, somos nós que esperamos ter oportunidades sem as darmos aos outros. Desprezamos qualquer possibilidade de beneficiar outro que não o nosso pequeno e raquítico limão. Até ao dia em que sentimos o ácido a queimar o fundo da língua. Não é o ácido que tem culpa, ele sempre esteve ali… o açúcar é que foi sofrega e egoísticamente absorvido.

Afundei-me um pouco mais no banco e enrolei a manta de veludo à minha volta. Olhei para o sumo e aceitei-o ainda um pouco desapontada pela sua natureza. Eventualmente irei acabar por lhe juntar o açúcar e a água… mas por agora, só por mais um tempo quero aceitá-lo como é, para que mais tarde não me esqueça…

2138014

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Tuesday, December 29, 2009

monalisa

She’s smiling, but is she happy? She looks happy, so what does it matter?

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Saturday, October 31, 2009

Voltei… e mudei…

Um dia só faltaram sete. Um dia as malas foram reabertas, as roupas arrumadas junto das prendas para a família. Prendas de um regresso que nunca mais chegava, de um desejo de um abraço sem fim. As festas de despedida inesperadas, os últimos olhares, as últimas viagens de bicicleta. Os últimos sabores e cheiros de uma terra que me cativou tanto sem nunca me pedir nada em troca a não ser a minha presença e o meu regresso…um dia. Lembro-me dos últimos sítios aonde fui, lembro-me dos primeiros e de todos aqueles entre uns e outros. Lembro-me do dia em que parti e do dia em que cheguei a mim. Lembro-me do dia em que descobri que não queria ser mais ninguém, senão eu mesma. Encontrei tanto. Aprendi tanto. Cresci… um pouco mais. Só quando toquei nas nuvens e vislumbrei o deslumbrante país de retalhos que me tinha acolhido como a uma filha a ficar cada vez mais longe, me soube a sal. Me soube a saudade, como a saudade que me soube ao avistar Lisboa, pintada em tons de pôr do sol… linda, como quando a deixei ao amanhecer. Com os braços abertos, o mesmo cheiro a casa e a língua onde atrevi o primeiro “obrigada” depois de tanto tempo. Tudo mudou. As pessoas, as cores, a forma de ver, de sentir. Tudo em mim mudou, muito e principalmente. Consegui tudo e muito mais do que procurava. Encontrei o que não sabia existir. Encontrei o que sou capaz e o que quero para mim. Tudo mudou e eu sou tudo.

lisboa1

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Monday, June 29, 2009

Começo a escrever numa página em branco. Vazia de ideias e pensamentos. Á minha espera…
O lápis tosco e gasto que encontrei no fundo da gaveta rasga os poros do papel imprimindo-lhe pedaços do seu carvão. Cheira a desenhos distantes que nunca confessei. E como se de um segredo se tratasse aperto contra mim as folhas num momento de intimidade.

As ondas do lago propagam-se na sua quietude e as vozes dos patos enchem o seu infinito da mesma forma que este velho lápis preenche esta simples pálida folha de papel com os sons da minha alma.
E o fundo de mim grita até tocar nesse infinito que é um mundo de perguntas sem resposta. Um paraíso de impulsos sem consequências, que me arrepiam por dentro e me lavam a alma.
Não existe o tempo. Não existe a distância.
Espreito o meu reflexo nas águas onde um dia Narciso se afogou, mas a imagem que vejo mais ninguém consegue ver. Vislumbro o fundo do que sou e estico os braços para agarrar o que quero que ser…que está tão perto e tão longe.
Largo o velho lápis e o papel, dispo as roupas que me prendem e deixo que a água acaricie o meu corpo. Deixo-me embriagar pelo seu toque e o meu corpo nu desliza cada vez mais fundo, e os raios de luz que atravessam a água são cada vez mais ténues, e o eco do mundo à superfície está cada vez mais longe… e eu vou sem mais nada do que uma alma que se encontra em se perder…


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Monday, May 4, 2009

A persistência do tempo

A hora já vai avançada…as pálpebras pesam e o corpo cansado ressente-se e pede sossego. A mente trabalha arduamente como se não conseguisse parar. Luta contra a noite por mais um momento consciente. Sem se querer render a sonhos, sem querer descobrir recalcamentos, lembrar o passado ou tentar adivinhar o futuro. A razão quer o agora, quer o sempre. Quer sempre o sempre, incansavelmente.

A visão é já turva e semicerrada. Mas a mente não quer ver. A mente quer descobrir, devassar sobre o que está onde e porquê. A mente quer alcançar o gnosticismo, filosofar sobre o niilismo e debater ideais. Quer acordar os segredos adormecidos, espicaçar a dúvida e a ignorância.

Ouve-se um zumbido contínuo e os movimentos repetitivos do ponteiro do relógio que ditam o tempo que passa. A mente teme o relógio, teme o tempo que o relógio constrange repetitiva e constantemente. Constante. Cada som que passa é passado e o futuro é assustadoramente certo e imutável. A mente não quer ouvir o tempo que passou mas não consegue não saber que passou. Que vai passar. A mente conjura sobre o instante, indaga sobre o momento, mas não se deixa vencer. Resiste à persistência do tempo.

O corpo cede prostrado na cama e os olhos fecham. O zumbido pára, e o som parece cada vez mais longe…até parar… O tempo resiste à persistência da mente.

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Sunday, March 15, 2009

Ainda é cedo, ao contrário do que parece ao espreitar através da janela.
Os vizinhos jantam à luz das velas e o céu revolta-se em tons cada vez mais escuros.
Para os pássaros nas árvores vizinhas é sempre manhã. Cantam numa língua que ainda não conheço. Trazem sons doces e frescos que retinem na janela ao serem movidos pelo vento.
Bebo um gole de chá quente…a sacarose entranha-se no corpo amornando-o. O seu sabor familiar faz-me de alguma forma sentir em casa, mas depressa olho em redor o desconhecido a que me vou habituando…
Os meus dedos percorrem a chávena à procura do seu calor… e relembro…
Aqui não põem açúcar no chá… O meu olhar é como quem quer descobrir e sinto que me observam… Eu sou o desconhecido para os outros… aqueles que não reconhecem em mim as suas feições.
Oiço vozes que falam coisas que não entendo… palavras, frases, ordens ou brincadeiras por entre gestos e sorrisos que a linguagem corporal vai ajudando a descodificar.
A paisagem é romântica, inesquecível… e na rua o frio assalta os corpos ao primeiro impacto… Mas nas pedaladas energéticas da manhã, ninguém se parece importar.
Perguntam-me muitas vezes como é… se a solidão aperta quando se está sozinha num país distante, diferente e com uma língua que não se conhece. Perguntam-me a que sabe a independência, quando esta é a única forma de sobreviver. Perguntam-me se estou bem…
A verdade é que nunca estou só… Estou sempre a descobrir, a descobrir-me… Num país novo, numa nova cultura, tenho ainda o mundo para aprender…
Encontro sozinha novos cheiros e sabores, é a eles que sabe a independência, … sabe aos momentos em que descubro em mim características que não sabia ter… sabe a cada palavra nova que aprendo e atrevo a dizer… sabe a cada bocadinho de confiança que ganho e a cada lágrima que por vezes cai com o peso da saudade…
Sim, a saudade aperta às vezes… mas quem realmente sente a nossa falta consegue-nos sempre encontrar.
É impossível partilhar todas as experiências que aqui já vivi, algumas sabe bem guardar só para mim…
Não consigo evitar esboçar um sorriso cúmplice ao relembrar todos os momentos…e só agora começaram… Saboreio o último gole de chá. Já anoiteceu. Fecho a janela e visto um casaco… Mais um dia de aventuras que passou… mais um pedaço desvendado…

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Friday, January 2, 2009

Sento-me no chão frio e adormeço por escassos segundos… execrados pela escuridão que acorda a cada compasso.
Sento-me no chão frio e penso. Penso que já não estás comigo. Que te foste embora sem ter tempo para te despedires de mim. E por isso sento-me. Sento-me no chão de uma pedra fria em terras que outrora foram tuas e penso… Se um dia também te sentaste e choraste como eu, neste chão, nesta pedra… Se o tempo apagou a tua marca deste lugar ou se a chuva desta manhã gelada ainda trás um pouco da tua essência. Penso se um dia os teus pés descalços pisaram estes caminhos, se um dia desejaste que eu os pisasse, … se um dia aqui também sentiste o desespero de querer ir embora, … partir.
Queria sentir-te aqui comigo, queria que aquecesses esta pedra fria comigo e me falasses sobre a vida e me explicasses  o amor com que o espigueiro protege o milho. Queria que me contasses histórias da tua meninez que mudassem as memórias que cá ficam hoje, que mudassem esta paisagem tão triste, que é tudo o que a minha cegueira me deixa ver agora.
O frio gela-me o corpo, resto de uma alma gelada. Vislumbro o verde das serras ao longe num semicerrar de quem tenta descobrir o seu segredo. Oiço os pássaros e a chuva numa estranha harmonia consolante e peço-te que me leves… Peço-te que o frio anestesie a dor e que a chuva apague as minhas marcas, que aqueças a minha alma cor de Éter.

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Wednesday, December 3, 2008

Mudanças? Trá-las o vento…

Os ventos do Norte chegam enfim, cheios de mudanças. Sabíamos, desde sempre, como um facto garantido, que iriam chegar, mas o sabor da sua chegada, é impossível de prever.

Para quem acaba o curso, o estágio, os estudos e recebe finalmente o diploma, é um fim da dormência e do conforto do estudo, da dependência dos pais, do objectivo definido semestre após semestre. Ao fim de 17 anos de estudo alguém decide sacudir e expulsar-nos do sofá que já tinha a nossa cova e o nosso cheiro…

O objectivo de passar às cadeiras, ter boas notas, deixa de existir… O mundo real espera-nos, sem livro de instruções, sebenta, receita ou sequer convite. Espera-nos sem esperar de nós coisa alguma. Sem nos dar objectivos, ou motivações. Temos que ser nós a traçar os nossos objectivos, a criar as nossas motivações, a gritar bem alto que estamos ali que queremos fazer a diferença.

É nesta altura, neste pequeno espaço de tempo que vai desde o fim do curso ao início do primeiro emprego que temos o mundo nas mãos sem ter nada. O infinito é o limite. Não sabemos ainda o que vamos conseguir, mas conseguimos ainda sonhar com o que gostávamos… há a timidez e o medo de não conseguir é certo, mas ainda não fomos marcados pelos estigmas da sociedade e isso dá-nos a liberdade de querer o que sonhamos com todo o egoísmo merecido.

Pela frente não se sabe o que se espera, quem nos espera, se alguém nos espera… mas deseja-se poder continuar a sonhar assim. A nossa liberdade não devia custar a liberdade do sonho.

 

Segue em frente, sem barreiras, abraçando os teus sonhos e superando os obstáculos. Não tens nada a dever nem a temer a ninguém. Faz a diferença, com coragem e sempre fiel a ti mesmo. O mundo é teu, e só é teu uma vez, …vive! Estarei a teu lado sempre que precisares, para ouvir, falar ou calar. Vou estar contigo mesmo quando não estiver, porque a felicidade que te desejo não cabe em fitas de curso, palavras ou epopeias inteiras. Desejo-te o mundo.

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Friday, November 21, 2008

Cartas em Cadeia

Se há coisas que me aborrecem são aqueles mails que começam com “pede um desejo” e acabam com “manda isto a 20 amigos nos próximos 30 segundos e terás uma surpresa maravilhosa ou-apaga-este-email-e-algo-terrível-acontecerá!”… Bem ao estilo de: “segue a carneirada e encontrarás a felicidade”. Fico sempre a pensar em quem me mandou, e por que raio me terá mandado aquele mail… será que realmente ficou à espera que algo de maravilhoso lhe acontecesse? Ou simplesmente se sente bem em distribuir coisas terríveis pelos seus entes queridos?
Não entendo… mas li no outro dia uma espécie de proposta em jeito de cadeia, que achei engraçada, …e por isso cá vai: (só porque me apetece! e não!, não vou enviar isto a mais não sei quantos desgraçados que possam ficar sujeitos a partir espelhos o resto da vida!)

O desafio era o seguinte, escolher uma banda/artista e responder a 10 perguntas apenas com títulos de músicas dessa banda/artista.

A banda que escolhi foi, como não podia deixar de ser, Muse:


Perguntas:

- És homem ou mulher?
Starlight

- Descreve-te: Butterflies&Hurricanes

- O que as pessoas acham de ti? Invencible

- Como descreves o teu último relacionamento? Blackout

- Descreve o estado actual da tua relação. Feeling good

- Onde querias estar agora? City of Delusion

- O que pensas a respeito do amor? Bliss

Como é a tua vida? Sing For Absolution

- O que pedirias se pudesses ter só um desejo? Apocalypse Please

- Escreve uma frase sábia: Time Is Running Out

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Sunday, November 9, 2008

A loja mágica

Aqui há tempos comprei numa pequena loja, um jambé, um objecto artesanal que, tal como a senhora que o estava a vender me fez questão de lembrar várias vezes naquela transacção tão fugaz, podia ser virado ao contrário transformando-se numa útil “jarra”… “em que eu poderia colocar flores-por-exemplo”. Algum tempo mais tarde comprei nesse mesmo sítio um pau da chuva que descobri ser mágico alguns minutos após a sua compra. Assim que comecei a mexer nele, cai uma chuva torrencial na rua, ocorrência que se repetiu mais algumas vezes e talvez tenha sido mesmo responsável pelas cheias em sete rios no inicio do mês passado. A minha última aquisição foi feita este fim-de-semana, em que comprei uma inofensiva caixa com luzes de natal para enfeitar o presépio, (sim, gosto de começar esta época festiva com a maior antecedência possível). Algumas horas mais tarde vim porém a descobrir que essas luzes eram também mágicas… o que se passou foi que à segunda vez que as ligámos à corrente, com o intuito de vislumbrar as suas cores magníficas e os seus 1000 efeitos cromáticos, explodiram, com direito a fogo-de-artifício, curto-circuito e turn off automático dos fusíveis cá de casa (é obvio que se o presépio já estivesse feito, o efeito teria sido 10 vezes mais ofuscante… parece que já estou a visualizar as luzes a explodirem no meio do papier mâché e dos restantes enfeites de natal sobre musgo seco…). Bem lá se foram as luzinhas de natal… fica a sugestão, … antes de culparem o governo ou o aquecimento global lembrem-se que alguém poderá ter comprado mais algum objecto mágico naquela loja, e daí, é bem provável que hajam sucursais espalhadas pelo mundo inteiro. Eu, fico ansiosa de lá voltar…

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