Deixei-me cair no banco junto à janela. Podia ser só mais uma vez como tantas outras, em que me deixo ficar e perco o olhar e os sonhos no horizonte, nos montes ao longe, no céu ora limpo ora carregado, no burburinho da cidade de desperta. Mas não desta vez…desta vez sentei-me só para estar comigo.
Recusei-me a pôr açúcar no sumo de limão espremido à minha frente. Também não o diluí com água. Quis que fosse assim, puro, cru, ácido. Como a vida, no fundo, pensei. No fundo, mesmo que se encha de açúcar, que se dilua com água, a vida será sempre ácida. Usamos o açúcar e a água como tentativas desesperadas de mascarar o seu paladar.
As células sensoriais responsáveis pelo doce entram primeiro em acção, esperando dominar o ácido. Este é sentido mais tarde no fundo da região lateral da língua, após se entranhar. Quando o açúcar não é suficiente, o ácido sobrepõe-se muito facilmente ao doce, afinal é ele o natural.
Bem, sendo a vida aquilo que fazemos dela, na verdade o ácido está então nas pessoas e não na vida em si. Não é a vida que não nos dá muitas oportunidades, somos nós que esperamos ter oportunidades sem as darmos aos outros. Desprezamos qualquer possibilidade de beneficiar outro que não o nosso pequeno e raquítico limão. Até ao dia em que sentimos o ácido a queimar o fundo da língua. Não é o ácido que tem culpa, ele sempre esteve ali… o açúcar é que foi sofrega e egoísticamente absorvido.
Afundei-me um pouco mais no banco e enrolei a manta de veludo à minha volta. Olhei para o sumo e aceitei-o ainda um pouco desapontada pela sua natureza. Eventualmente irei acabar por lhe juntar o açúcar e a água… mas por agora, só por mais um tempo quero aceitá-lo como é, para que mais tarde não me esqueça…







